Acredito que não exista uma definição concreta que separe o humor bom do ruim. Podemos rir desde a mais simples gag física - como um tropeção, em Chaves - até uma piada mais exclusiva a um determinado grupo de pessoas - como Pierce Hawthorne, em Community, gritando "I'm a living god!", referência clara a "Quase Famosos", filme com Kate Hudson e Billy Crudup.
Mas se tem algo que me irrita é esse humor "politicamente incorreto" que vem se impregnando nos últimos anos, principalmente no Brasil. Xingar, ignorar e até humilhar as pessoas parece atrair não só atenção e polêmica, mas também um fiel público que lhe defende até a morte como "humor de verdade" ou até mesmo como "humor inteligente".
Sim, vou citar nomes. Então, se você se sentir ofendido ao ver que falei mal de algum ídolo seu da comédia, pode me mandar uma mensagem pessoal. Mentira, só posta um comentário ai embaixo mesmo.
Rafinha Bastos é o primeiro. Desde a sua infeliz piada sobre o bebê de Wanessa Camargo, parei para prestar atenção no sujeito. Soube de sua pedestre piada sobre estupro, aonde afirma que mulheres feias que foram estupradas deveriam agradecer ao estuprador por isso, e que o criminoso merecia um abraço. Primeiro: essa é a piada mais óbvia que alguém pode fazer sobre o assunto. Segundo: é desrespeitoso. "Ah, mas esse é o humor do Rafinha: ele esculacha mesmo." Ah, então se a mãe ou irmã dele tivesse sido estuprada, e mesmo assim ele tivesse feito a piada, você continuaria o respeitando?
Ai fui assistir ao "proibido" DVD dele. E, sério: para um comediante famoso, que afirma de 5 em 5 minutos que ali está sendo filmado o seu primeiro DVD, Rafinha Bastos parece não se esforçar para mostrar o seu melhor - que é o que eu acredito que um artista (independente de ser comediante, músico ou dançarino) deva fazer. Além disso, Rafinha soa burocrático, ao deixar claro que de timing nada entende e que não tem noção de como estruturar um show de stand-up, visto que ele simplesmente começa a falar de assuntos aleatórios, com uma pequena conexão entre eles.
"Mas Bruno, olhe só o título do DVD: A Arte do Insulto. Isso explica o porque das piadas grosseiras do Rafinha."
Explica. E explica também o quão preguiçoso ele é, já que fazer humor em cima da "desgraça" dos outros é a maneira mais fácil e óbvia de se arrancar risos alheios. Mas o que mais me incomoda em Rafinha Bastos é o fato dele ter deixado claro, em um de seus vídeos no Youtube, que é fã de Louis CK, um BRILHANTE comediante norte-americano.
Eis o vídeo.
Note como Rafinha, ao invés de fazer uma crítica as idiotices postadas em sites de fofocas, utiliza a chance que tem para simplesmente atacar aqueles que falam mal (e com razão) dele. No vídeo, ele apela para piadas sexuais, dizendo que a garota é "mal comida", que o rapaz tem "ejaculação precoce", e que quem não consegue atrair audiência para o site sofre penitências... enfim, vocês podem ver isso no vídeo. E isso tudo fica claro entre 02:40 e 02:54, onde o próprio Rafinha Bastos xinga o novo contratado e o chefe concorda com isso. Patético.
Agora, vejamos o vídeo de CK, que como falei, "inspirou" Rafinha a fazer seu vídeo.
Primeiramente: Louis CK utiliza a oportunidade de falar sobre a Igreja Católica para criticá-la, e para isso utiliza um acontecimento polêmico dela: os constantes abusos sexuais em crianças causados por padres. Além disso, CK questiona o porque de uma Igreja encobrir tudo isso, para logo em seguida fazer outra piada, agora sobre o controle mental exercido pela mesma. Como se não bastasse, Louis CK ainda fala sobre o dinheiro que a Igreja Católica ganha de seus fiéis e como é gastado, além de questionar implicitamente na piada sobre a "pureza" as coisas absurdas que a religião afirma ser verdade, e que as pessoas acreditam - e, com isso, afirma que a Bíblia é feita de... bem, assistam ao vídeo.
E o que falar sobre a piada final, em que Louis revela que foi abusado quando menor por um padre e uma lágrima desce pelo seu rosto? Simplesmente hilário.
Agora, voltando ao humor brasileiro...
Vejo muitas pessoas por ai louvando o Pânico! Na Band como se fosse uma filosofia de vida. E me pergunto se assim a humanidade ainda possui, por mais mínima que seja, esperança de melhorar. O Pânico! é exagerado, bobo e extremamente caricato. Reconheço que Eduardo Sterbiltch tem talento, mas ele o desperdiça no programa, fazendo um personagem sem nem um pouco de graça (sim, falo do Melhor do Mundo) e repetitivo.
E sobre Danilo Gentili, que alcançou fama total ao conquistar seu programa próprio na Band, também tenho o que falar mal, devido simplesmente a uma mera piada que este fez.
No dia em que Renato Russo estaria fazendo aniversário, Gentili postou isso em seu Twitter.
"Se Renato Russo usasse camisinha, hoje estaria fazendo aniversário."
Piada boba, óbvia e humilhante. E o que falar do vídeo em que ele, pago para falar sobre Chaves, simplesmente aproveita para fazer as piadas mais óbvias possíveis e que nada tem a ver com o seriado?
Se quiserem ver o vídeo, aqui está.
Mas, e o bom humor? Onde está?
Bem, a definição de bom humor varia muito de pessoa para pessoa. Alguns consideram a série Todo Mundo Em Pânico genial. Bem, as melhores paródias que já vi foram dirigidas e escritas por Edgar Wright. Ele criou estes três filmes, Todo Mundo Quase Morto (paródia de filmes de zumbi), Chumbo Grosso (paródia de filmes policiais) e Scott Pilgrim Contra O Mundo (um verdadeiro video-game vivo, baseado na tão genial quanto história em quadrinhos de Bryan Lee O'Malley). Todos sutis, bem montados e com o timing cômico perfeitos. Vale a pena conferir as três obras (e fiquem ligados, pois próximo ano tem filme novo de Wright).
Bem, esses são os melhores da atualidade no cinema. E na televisão?
O melhor seriado de humor que já vi. Com as melhores referências a filmes e outras séries. Com o mais inteligente humor. Com o melhor timing cômico. E com a dose certa de crítica social.
Pronto, acabei de resumir Community, esta série sobre um grupo de estudo formado por pessoas com as mais diferentes personalidades em uma faculdade comunitária. Todos que a assistem afirmam que é viciante. Sou a prova viva disso: vi duas temporadas completas em quatro dias.
Enfim, veja somente um dos vários melhores momentos da série.
Mas você pode não querer conferir tudo. Então, resumirei a minha opinião sobre um bom humor.
Para mim, bom humor é aquele que te faz pensar, e não algo instantâneo, feito para qualquer um rir. Bom humor é quando o autor pensa e repensa várias vezes para chegar no produto final, e você nota isso ao absorver a piada. Humor é quando você percebe uma pequena referência a algo que conhece, como ocorre bastante com Community. Humor não é algo exagerado, é simples, sutil e eficaz, como Chaves. Humor de verdade é aquele que de tão engraçado te faz memorizá-lo para depois repassar aos amigos. Humor é aquele em que não é necessária a desgraça de ninguém para o seu sucesso.
E acredito que os casos que considerei ruins acima não se utilizam dessas características. Infelizmente.
Bons risos a todos,
Bruno Albuquerque. :)
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