Por ter escolhido ser crítico de cinema, estou fadado a ouvir reclamações de pessoas alegando que sou "arrogante", "me acho" e "reclamo de tudo". E essas mesmas pessoas tem a audácia de falar que Amanhecer - Parte 1, Transformers 3 e Os Vingadores foram filmes EXCELENTES (tudo bem que o último é realmente bom, mas está a léguas de distância de ser excelente). Não estou, ao afirmar isso, querendo dizer que sou superior por deter um conhecimento cinematográfico maior. Estou querendo afirmar que essas pessoas não podem achar que suas opiniões tem a mesma importância da minha, mesmo tendo ciência de que apenas falaram que "é bom" ou que "é ruim" e eu tendo escrito uma crítica extensa com diversos argumentos.
"Mas para que eu vou querer um conhecimento cinematográfico se do jeito que estou já me divirto o suficiente?"
Primeiramente: cinema vai além de diversão. Cinema é ARTE, e merece ser realizado com a mesmo talento, delicadeza e atenção que um escultor, pintor ou músico compõe sua obra.
Segundo: porque a assustadora maioria da população não enxerga além de 20% do que um filme tem a lhe propor. A prova disso são pessoas que dizem que "O Poderoso Chefão" é ruim porque dá sono; que é bonito Bella Swan acordar cheia de hematomas em Amanhecer (notem a agressividade de Edward na "cena de sexo" - ele espanca a garota), defendendo Edward ao falarem que "ele não se controla" (então vocês perdoam todos os espancadores de mulheres presos pela Lei Maria da Penha que alegaram não se controlar?); e que Transformers 2 é maravilhoso por refletir a ressurreição de Cristo na também ressurreição de Optimus Prime (mas ignoram um roteiro que sabota suas próprias ideias a cada minuto, um diretor que não sabe manter uma cena sem corte por mais de 10 segundos e explosões exageradas, além de furos - olhem eles de novo - no desenvolvimento das personalidades dos personagens).
Mas vocês podem ter a mesma linha de pensamento de meu colega no trabalho de ser nerd Rodrigo Gomes:
" Se eu fizer um curso de cinema ou de crítica, não irei parar de me divertir assistindo filmes para, instintivamente, analisar os detalhes deles para depois critica-los?"
Essa linha de pensamento do Rodrigo é correta por um lado. Não entendendo de cinema, você se decepcionará menos e se divertirá muito mais - mas, entendendo, você saberá apontar quando uma obra subjulga sua inteligência, faz uma ofensa ou é preconceituosa de maneira implícita ou extremamente discreta - como nos casos que citei acima -, ou poderá encontrar referências, mensagens bonitas escondidas ou entender que a expressão de determinado ator influiu bastante na história - como em Bastardos Inglórios, na cena do restaurante: quando Hans Landa pede um copo de leite para Shossanna, repare na expressão da atriz Marleen Maathuis, como se a lembrança de que essa foi a mesma bebida que Hans tomou pouco antes de mandar seus homens executarem a família de Shossanna a tivesse empurrado para a frente. Um susto psicológico despertado por uma lembrança trágica.
Isso é cinema. Consegui ser claro? Espero profundamente que sim.
Mas para fechar esse texto de maneira com que eu me sinta confortável com minha argumentação, gostaria de falar sobre um filme que é ignorado - e muitas vezes maltratado - por quase todos: Speed Racer, uma pequena obra-prima que poucos conseguem compreender o seu valor.
Mesmo com a minha longa crítica, acho que não consegui explicar o porque de eu me emocionar tanto com o filme. Primeiramente, vamos ver a cena que tanto me emociona - já chorei com essa cena na casa de uma amiga da minha mãe, em frente a três garotas. Sério.
Se você assistiu ao filme, sabe muito bem o quão desenvolvida é a carga dramática do filme. Não notou? Deixe-me explicar, então.
Desde o início do filme, vemos o amor de Speed pelo seu irmão. Sempre querendo estar com ele, sempre assistindo as corridas dele, sempre imitando-o na escola. Inclusive, na própria escola, Speed escreve num cartão-resposta, ao invés das respostas, o nome do irmão. Após isso, o amor é abalado pela fuga de Rex Racer, e piorado com a sua morte. Depois, vemos que Speed, já adulto, mantêm esse amor, sempre levando uma foto do irmão consigo para as corridas, e nunca batendo o recorde de Rex de propósito, para sempre lembrar e respeitar a glória do irmão. Com o tempo, surge o Corredor X, e as suspeitas de que ele possa ser Rex. Após revelar não ser o falecido irmão do protagonista - e deixar claro que entende os sentimentos frustrados de Speed -, o Corredor X lhe dá uma lição que o faz manter o controle. Depois disso, temos a corrida final, aonde Speed se supera como corredor - em meio a diversos flashbacks de momentos chaves do filme (com um enfoque maior em cenas individuais com membros da sua família - cenas, essa, que enriquecem a já harmoniosa relação familiar entre os Racer) -, enquanto se emociona em meio a tudo isso. E, para elevar a carga dramática até seu ápice - e com isso, levar esse crítico que vos fala as lágrimas -, o roteiro brilhante dos Irmãos Wachowski nos faz uma revelação final sobre o Corredor X, e em seguida mostra Speed com sua família comemorando a vitória.
Note as palavras em destaque no parágrafo anterior - a maioria estranha para um leigo cinematográfico, mas que influem bastante na sua experiência cinematográfica - e você nem percebe.
Se eu ainda não lhe convenci da importância do conhecimento cinematográfico para uma experiência mais aprofundada e produtiva - mesmo dando como exemplo uma experiência própria (e que experiência), gostaria de lhe pedir minhas sinceras desculpas, pois eu desisto.
Bons filmes a todos,
Bruno Albuquerque. :)
Ps: Por que raios eu fui rever esse video? Já tô aqui, enxugando as lágrimas de novo.
Ps2: Uma belíssima música de uma belíssima cena de Bastardos Inglórios. Só uma recomendação mesmo. :D
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