Alguns filmes, por exemplo, chegam a ultrapassar os limites, explicando tudo o que já está em tela. Até mesmo em filmes bons, como Missão Impossível - Protocolo Fantasma o didatismo aparece: note na cena em que a equipe de Ethan Hunt discute, a caminho de Dubai, o plano para pegar os códigos nucleares - Tom Cruise quase atropela uma cáfila, assustando a todos. Ao ver que sua equipe se acalmou do susto, Tom Cruise pega ar e diz:
- Hm, camelos!
... Perceberam a falta de necessidade da fala? O público já havia percebido que eram camelos, já havia percebido que eles estavam na pista, e que é errado, mas Tom Cruise (ou o roteirista do filme, não tenho certeza se foi um improviso) deve ter pensado que as pessoas possuem um alto grau de deficiência visual e não perceberam qual animal estava na pista, e achou completamente necessário dizer quais são.E o que falar de Harry Potter? Com a exceção de O Prisioneiro de Azkaban e As Relíquias da Morte - Parte 1, considero todos os outros filmes regulares ou ruins. E quando me perguntam o porque, a primeira resposta que utilizo é: o didatismo. Basta parar para prestar um pouco de atenção, principalmente nos dois primeiros filmes, e perceber que sempre que alguém não sabe de alguma coisa, surge um personagem dizendo que sabe porque "viu em um livro" ou em "uma aula da McGonagall/ Flitwick/ Snape". E, para piorar a situação, quase sempre são dúvidas desnecessárias, que nada contribuem para a narrativa - sem contar que todas surgem de maneira forçada, nunca sendo natural.
Agora, dois exemplos recentes: Prometheus e Jogador Nº 1, um filme e um livro. Prometheus está sendo considerado por muitos um filme ruim simplesmente por não responder as questões que ele mesmo levanta. Mas, em outros momentos, ele explica tudo aquilo que já está claro. Como na cena em que o geólogo lança as esferas metálicas para escanearem o local - ele diz, enquanto vemos ela escaneando as paredes e o teto, que elas vão escanear o local inteiro e gerar uma imagem holográfica dentro da nave. Sendo que, em seguida, o diretor Ridley Scott faz questão de mostrar o holograma, na nave, sendo feito! Ele tinha duas opções: mostrar as bolas escaneando tudo, e em seguida o modelo holográfico na nave; ou simplesmente mostrava o geólogo explicando o que as bolinhas deveriam fazer e no que resultariam, sem mostrar nada (sendo que a primeira opção, obviamente, é a mais sensata). Sem contar na cena em que o capitão da nave vai até os aposentos da Dra. Shaw, simplesmente para falar TUDO o que já estava claro desde o início: [SPOILERS] que aquele planeta era uma base de testes de armas biológicas, que eles deveriam morar bem longe dali devido aos riscos, e blá blá blá [SPOILERS]. Não havia a menor necessidade dessa explicação.

Mas o maior exemplo de didatismo que eu consigo encontrar é o livro Jogador Nº 1, que sabota as suas próprias ideias. Mais tarde, postarei um texto abordando tudo isso de maneira mais clara no Nerdverso, mas dou uma pequena prévia aqui. No livro, escrito pelo roteirista do bobo Fanboys, Ernest Cline, as principais intenções são fazer referências a games, séries antigas e filmes dos anos 80. Mas a necessidade de Cline de explicar para quem não entendeu todas as referências feitas, dizendo o nome do programa/ filme/ jogo, de seu criador e do ano em que saiu chega a passar vergonha alheia. O momento que mais me incomodou foi quando Parzival e Art3mis vão a festa de aniversário de Og, e Art3mis pede ao barman uma bebida com um nome estranho. A bebida é a preferida de um personagem do filme Highlander. Se a referência se mantivesse ali, eu não reclamaria de nada, mas Cline parece sentir compulsão em esclarecer tudo (e quem leu o livro pode confirmar isso), e coloca a narração de Wade dizendo: "Essa bebida é a preferida de fulano, de Highlander, dirigido por fulano de tal, em ano tal." E, pra piorar, em seguida ele coloca os dois personagens conversando justamente sobre a bebida fazer parte do filme Highlander! É o cúmulo do didatismo.
Mas ai vem a pergunta: Por que o didatismo é tão ruim assim?
Por que ele te insulta. Um filme, por exemplo, querer explicar tudo para você dá a entender que ele acha não te acha inteligente o suficiente para sacar o que está em tela. Acredito que o principal motivo que leva os produtores/ diretores/ roteiristas a fazerem isso é o medo que eles tem do público geral falar para os conhecidos que o filme é ruim por não entendê-lo. E eles até que estão certos: um ex-colega de classe, em determinado dia, veio me dizer que Watchmen, o filme, era horrível. Perguntei a ele se havia entendido alguma coisa. Ouvindo a resposta "não", só pude rir pelos minutos que se sucederam. Um exemplo que aconteceu recentemente comigo mesmo: assisti Blade Runner, e não entendi diversas coisas. Mas nem por isso disse que o filme era ruim. Entretanto, o didatismo ainda é um insulto e ainda é um problema que não pode deixar de ser percebido até mesmo pelo público geral.
Um bom exemplo de "contra-didatismo".
A cena final de Tropa de Elite 2. Perceba como José Padilha utiliza um close aéreo, focado no Congresso Nacional, enquanto a narração de Wagner Moura diz: "Quem você acha que financia o Sistema? Isso mesmo." Sem explicar NADA, conseguimos captar a mensagem: o GOVERNO BRASILEIRO financia o Sistema. E quantas palavras José Padilha utilizou para falar isso? Nenhuma.
Espero que tenham curtido.
Abraço, e inteligência ao apreciar determinada obra,
Bruno Albuquerque. :)
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